O APONTADOR E O LÁPIS DE COR

Categorias Crônica

O tempo está cada vez mais acelerado e a sensação é de que o tempo está voando. Observo que não sou a única a ter essa sensação de ter o tempo escoando pelas mãos, a urgência decorrente dessa impressão resulta na avidez de se ganhar tempo, pois ele passa muito depressa e a vida passa, não o controlamos.

Recordo-me de que, quando criança, por volta dos meus nove anos de idade, minha família e eu passávamos alguns finais de semana na fazenda dos meus avós paternos e, ao arrumar as malas eu sempre iniciava religiosamente pelas bonecas, seguido do caderno de desenho, minha bolsa contendo os lápis e canetinhas de diversas cores. Durante a viagem eu ficava observando atentamente a paisagem e assim tentava guardá-la na mente para que eu pudesse realizar um bonito desenho para minha avó, Maria Stella.

Geralmente chegávamos na fazenda na hora do café da manhã, e como se num passe de mágica, a mesa já estava servida com muito queijo, leite, pães, bruaca e o café inconfundível da minha avó que aromatizava toda a casa. A mesa enorme de madeira robusta e cheia de gavetas era o centro de boas conversas e gargalhadas a serem compartilhadas. Meu avô, Raimundo, sempre sentava à mesa para contar as histórias de Camões. Numa pausa entre um pensamento e outro, ele retirava o chapéu de couro de sua cabeça, tomava um gole de café quente e depois da careta soltava seu jargão: “O movimento é esse mesmo” e, logo se retirava apressado dizendo que tinha muitas coisas para resolver. Era uma pressa saudável para depois repousar e aproveitar os momentos em comunhão com a família.

Depois do café da manhã, eu me debruçava, sem pressa, sobre o chão gelado da sala, situada depois do enorme alpendre. Naquela sala cercada por quatro grandes janelas, o sol iluminava fortemente todo o ambiente. Cuidadosamente eu retirava todos os lápis da bolsa. Com o apontador na mão esquerda e o lápis na mão direita, eu apontava lápis por lápis e os separavam por tons. Aquele era o momento mágico para tentar desenhar as paisagens que havia capturado durante o percurso da viagem. Aos poucos os singelos rabiscos iam tomando forma e meus olhos se enchiam de tamanha felicidade…

Hoje, me encontro apontando mais um lápis, mas esse na verdade é o apontador da minha própria vida, de algumas experiências já vividas e que há muito estão por vir. Envelhecer é, na verdade amadurecer e, renovar a ponta do lápis. É apontar para escrever novos erros, para que dessa forma, como o giro no sentido horário estaremos criando um novo ciclo diante de uma nova folha em branco, na qual teremos a oportunidade de renovar nossos atos mantendo sempre um novo olhar diante dos fatos. Não esqueçam que da nossa vida, somos nós mesmos o grande responsável pelos traços que planejamos desenhar, ou melhor, seguir.

Especialista em Comunicação e Mkt Digital, Designer gráfico e web. Ama o que faz e adora compartilhar as bonitezas que encantam a alma.

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